A Advocacia e a Maternidade - Dra. Juliana Formigoni Martins

A Advocacia e a Maternidade - Dra. Juliana Formigoni Martins

OAB Santana

OAB Santana

Discutir sobre a não maternidade consciente é ainda um tabu, pois, criou-se uma áurea de que a felicidade da mulher só poderá chegar a plenitude se ela for mãe, a opção por não ter filhos está ligada imediatamente a não gostar de crianças, portanto, o pré-julgamento de que essa mulher é má ou no mínimo egoísta é uma rotina e um preconceito que precisa ser desmistificado.

É necessário falar sobre a maternidade consciente, pois, todos os dias uma menina se torna mãe, estamos condicionadas desde a infância a sermos boas mães, boas esposas e sobretudo boas donas de casa, os brinquedos de menina, dos primórdios aos dias atuais nos ensinam a embalar um bebê que chora, a fazer comidinha no fogãozinho cor de rosa, sem falar na “tabuinha de passar”, desde criança a menina é pressionada a se adaptar a um molde de moça recatada e do lar por mais absurdo que pareça, é a nossa realidade.

Este artigo não pretende de nenhuma forma questionar a beleza da maternidade, longe disso, há mulheres que desejam ser mães, que se dedicam exclusivamente ou não, à educação e criação de seus filhos e elas têm todo o direito e todo o nosso respeito, mas, há também o direito de não ser mãe, é certo a maternidade não é para todas e não há vergonha alguma em assumir isso, pelo contrário.

A mulher que não deseja filhos é vista com estranheza e preconceito, como se fosse uma obrigação a ser cumprida, especialmente antes dos 30 anos, como se a felicidade da mulher dependesse exclusivamente de criar a sua prole. Existem mulheres que não desejam a maternidade e que são também muito felizes, isso é uma escolha pessoal, um direito de cada mulher e não cabe julgamento se essa é mais feliz por ser mãe do que aquela que não é, pois, são múltiplos os fatores que envolvem a felicidade de cada ser.

Com o advento da pílula e de outras formas de contracepção e, especialmente as diversas modalidades de família (família monoparental, família homoafetiva e família poligâmica) e de vida pessoal, a mulher passa a ter mais liberdade e autonomia para escolher se deseja ser mãe ou não.

O IBGE (instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) revelou em 2010 que um em cada cinco casais no Brasil não tem filhos e uma em cada dez mulheres não pretende engravidar. Esses números têm crescido rapidamente. Em 2000, o número era metade disso e a proporção de casais com filhos caiu de 55% para 47% em dez anos¹, essa é uma realidade, um dado estatístico e não podemos fingir que não existe, é cada vez mais comum as mulheres optarem por não serem mães, pois, desejam suas profissões, por exemplo.

Apesar da liberdade que acompanha os tempos modernos, muitas mulheres ainda sentem dificuldade em negar a maternidade, pois, enfrentam muitas cobranças e preconceitos. Para a terapeuta comportamental e escritora Ramy Arany, co-fundadora do Instituto KVT Desenvolvimento da Consciência Empresarial e Assistente Social, em entrevista à Revista Cláudia em 12/02/2015, afirmou que:

“É direito de cada mulher escolher o que é melhor para vida dela. São muitos os fatores que envolvem essa questão, dentre eles está o fato da mulher não se sentir bem com esta capacidade de cuidar de uma criança, de ser uma mãe presente, de dar preferência ao trabalho, a uma carreira profissional, de não querer perder sua liberdade, dentre outros. Nestes casos a mulher pensa e acolhe a ideia de que realmente não nasceu para ser mãe, deixando essa missão para aquelas que sentem este chamado ou são capacitadas para isto. ”²

A advocacia não é a única profissão que requer muita dedicação e aprimoramento integral, mas, é sem dúvidas uma das concorridas e que exige da profissional uma grande fatia da sua disponibilidade. Para as mulheres que são mães é, sem dúvidas, muito complexo projetar a carreira sem pensar primeiramente nos filhos, tarefa árdua, pois, na maioria das vezes é a mulher quem abre mão da carreira e do trabalho para ficar em casa com os filhos, enquanto o marido sai para trabalhar.

Há aquela mulher que sonha em ser mãe e dona de casa, ótimo, mas, a mulher tem o direito de escolher que vida quer para si. Tem direito de escolher pela profissão, tem direito de não ser mãe, simples assim.

Não nos parece muito plausível escolher a maternidade apenas pela pressão e pela cobrança dos amigos e familiares, muito comum, chegarmos aos 30 anos e ouvirmos frases do tipo: “você seria muito mais feliz se tivesse filhos”, “você só será completa depois de ser mãe”, “você acha trabalho mais importante do que sua família?”.

Ressalta Arany, na mesma entrevista supramencionada, que “o peso da escolha de ter ou não filhos ainda recai sobre mulher, embora hoje seja uma decisão mais do casal(...), e reforça, que: “não se deve se preocupar com o que as pessoas pensam. Coloque a sua felicidade e escolhas em primeiro lugar”.

A não-maternidade consciente é tão importante quanto a maternidade consciente e é preciso que as mulheres assumam verdades, não admitindo que as influências do meio social as façam ser aquilo que não querem. Nós temos o direito de escolher e dizer não a maternidade, por milhares de motivos, devemos respeitar quem realmente somos e assumir isso é sem dúvidas um ato de coragem.

Bibliografia:

MALUF, Adriana Caldas do Rego Freitas Dabus. Direito das famílias: amor e bioética –
Rio de Janeiro: Elsevier, 2012.
http://mdemulher.abril.com.br/familia/claudia/3-situacoes-que-mulheres-que-naoquerem-ter-filhos-enfrentam.
Acesso em 26.07.2016 às 22hs.

Cadastre seu e-mail e receba nosso boletim eletrônico:

Facebook

Instagram